terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

REPORTAGEM: “A Natureza de uma nação mede-se pela maneira como tratam os seus animais.”- Gandhi

ADACA luta contra a sobrelotação e abate no canil abrantino

O frio paira no ar. O vento traz consigo um som familiar que se funde na chuva que cai, latidos de cães.  Sei, de imediato, que estou no sítio certo. Deparo-me com uma senhora, ao portão, rodeada por um número incontável de cães, situação imprevisível num pequeno canil.

Diz-se por ai, que o cão é o melhor amigo do Homem, mas, será o Homem o melhor amigo do cão? Ao espreitar o dia-a-dia de uma mulher que cuida praticamente sozinha de mais de 100 animais, ficamos na dúvida de qual a melhor resposta a esta pergunta.

Já la vão 9 anos, desde que Ana Fontinha ingressou na Associação de Defesa dos Animais do Concelho de Abrantes (ADACA), desde ai dedica-se de corpo e alma a este trabalho.

“Éramos um grupo de pessoas que gostavam imenso de animais, e desejávamos fazer algo por eles. No início, não tínhamos espaço físico portanto, fazíamos trabalhos no terreno. Distribuíamos ração pelos animais, tentávamos arranjar-lhes donos, levávamos-lhes ao veterinário. Fazíamos o máximo que podíamos por eles”, explica Ana.

Em 2007, surge o canil Municipal de Abrantes, como força motora para a diminuição do número de animais errantes. “Com a criação do canil, a associação tentou fazer um protocolo com as autarquias de Constância, Sardoal e Abrantes, de modo a evitar os chamados canis de abate. Tenho sido voluntária desde ai”, conta Ana Fontinha.

As autarquias envolvidas no projeto, disponibilizam 5 euros por cada animal no período de oito dias, caso o animal não seja adotado, este deverá ser abatido, situação que a ADACA se recusa a praticar, levando assim à sobrelotação do canil.

 “Eu não aceito. É uma questão de sentimentos! Infelizmente na maior parte dos canis do nosso pais é assim. No dia que abaterem aqui um cão pela ordem das autarquias, eu saio porta fora!  Senão sair nesse dia, saio no dia a seguinte, mas os cães que aqui estiverem 9 anos comigo vêm atrás. Abatem-se dez, abatem-se 20, mas para quê se continuam a reproduzir-se na rua em catadupa?”

A solução deste enorme problema social pode  não passar pelo abate, tal como tem sido feito ao longo de anos, porém para a voluntária, não pode ser desprezada a grande quantidade de animais que continua a reproduzir-se, tanto dentro como fora dos canis. “Pelos animais, a única solução é a castração, a esterilização. Não há outra solução para acabarmos com isto. É uma responsabilidade das autarquias. Têm de começar a agir”, apela a voluntária.

A dedicação desta senhora  ao canil salta  aos olhos logo no interior do mesmo, pois apesar de haver patinhas e focinhos por cada canto e recanto, o ambiente não poderia ser mais acolhedor, porque ao contrário do que se espera encontrar num canil sobrelotado, aqui a higiene paira no ar.

“Eu procuro com as dificuldades que tenho, poder fazer com que os animais se sintam bem. Faço de tudo para que as pessoas que chegam aqui, não tenham aquela sensação que se tem quando falam de canil”, esclarece Ana Fontinha.

Dezenas de canídeos cheios de força, vitalidade e energia rodeiam, saltam correm e pedincham a atenção de uma senhora, de 59 anos, que nada mais quer para além de lhes agradar e mostrar paixão.

“Eu acho muito engraçada a frase, «Do conhecimento nasce o rigor, da paixão nasce o conhecimento». Adotei esta frase como a gêma desta associação. A paixão pelos nossos ideais.  As pessoas têem de ter paixão pelo que fazem”.

São realmente precisos 9 anos de uma vida, para se ser capaz de criar laços tão fortes com 180 cães porém, os anos passam, e a idade não perdoa, “nestes 9 anos sempre pensei que poderia ter a ajuda daquelas pessoas que passam a vida a apregoar e a gritar os animais isto, os animais aquilo,  ai os animais! Mas não tenho, estou só! Chega a um ponto em que eu já não consigo aguentar 24h sobre 24h. Já há 9 anos, que não sei o que é um dia de descanso”.

O rosto de Ana transfigura-se sempre que se refere às «pessoas de hoje em dia» “a maior parte das pessoas querem cães apenas  porque é bonito. Olham para eles como se fossem objetos feitos para satisfazer as suas próprias necessidades. Fartam-se, abandonam-os. Tem-se que educar as pessoas de modo a que evoluam naquilo que diz respeito aos animais. As pessoas tem que se lembrar que os outros não estão aqui para os servir. Eu não estou aqui para os servir! O cão é o melhor amigo do homem, mas este retribui-lhe da mesma forma?"

Para Ana Fontinha, o futuro é incerto, tendo como única certeza a vontade de fazer cada vez mais pelos seus pequenos, grandes, companheiros,“as pessoas ainda me criticam e dizem «melhor fizesses pelas pessoas aquilo que fazes pelos animais», mas uma coisa é certa, se em vez de cães aqui dentro estivessem pessoas eu já me teria ido embora”.

Patricia Tavares
Crédito da foto: Pedro Ferreira

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