ADACA luta contra a sobrelotação
e abate no canil abrantino
O frio paira no ar. O vento traz consigo um som
familiar que se funde na chuva que cai, latidos de cães. Sei, de
imediato, que estou no sítio certo. Deparo-me com uma senhora, ao portão,
rodeada por um número incontável de cães, situação imprevisível num pequeno canil.
Diz-se por ai, que o cão é o melhor amigo do Homem, mas, será o Homem o melhor amigo do cão? Ao espreitar o dia-a-dia de uma
mulher que cuida praticamente sozinha de mais de 100 animais,
ficamos na dúvida de qual a melhor resposta a esta pergunta.
Já la vão 9 anos, desde que Ana Fontinha ingressou na
Associação de Defesa dos Animais do Concelho de Abrantes (ADACA), desde ai
dedica-se de corpo e alma a este trabalho.
“Éramos um grupo de pessoas que gostavam imenso de
animais, e desejávamos fazer algo por eles. No início, não tínhamos espaço
físico portanto, fazíamos trabalhos no terreno. Distribuíamos ração pelos
animais, tentávamos arranjar-lhes donos, levávamos-lhes ao veterinário.
Fazíamos o máximo que podíamos por eles”, explica Ana.
Em 2007, surge o canil Municipal de Abrantes, como
força motora para a diminuição do número de animais errantes. “Com a criação do
canil, a associação tentou fazer um protocolo com as autarquias de Constância,
Sardoal e Abrantes, de modo a evitar os chamados canis de abate. Tenho sido
voluntária desde ai”, conta Ana Fontinha.
As autarquias envolvidas no projeto, disponibilizam 5 euros
por cada animal no período de oito dias, caso o animal não seja adotado,
este deverá ser abatido, situação que a ADACA se recusa a praticar, levando
assim à sobrelotação do canil.
“Eu não aceito. É uma questão de sentimentos!
Infelizmente na maior parte dos canis do nosso pais é assim. No dia que
abaterem aqui um cão pela ordem das autarquias, eu saio porta fora! Senão
sair nesse dia, saio no dia a seguinte, mas os cães que aqui estiverem 9 anos
comigo vêm atrás. Abatem-se dez, abatem-se 20, mas para quê se continuam a
reproduzir-se na rua em catadupa?”
A solução deste enorme problema social pode não
passar pelo abate, tal como tem sido feito ao longo de anos, porém para a
voluntária, não pode ser desprezada a grande quantidade de animais que continua
a reproduzir-se, tanto dentro como fora dos canis. “Pelos animais, a única
solução é a castração, a esterilização. Não há outra solução para acabarmos com
isto. É uma responsabilidade das autarquias. Têm de começar a agir”, apela a
voluntária.
A dedicação desta senhora ao canil salta aos
olhos logo no interior do mesmo, pois apesar de haver patinhas e focinhos por
cada canto e recanto, o ambiente não poderia ser mais acolhedor, porque ao
contrário do que se espera encontrar num canil sobrelotado, aqui a higiene
paira no ar.
“Eu procuro com as dificuldades que tenho, poder fazer
com que os animais se sintam bem. Faço de tudo para que as pessoas que chegam
aqui, não tenham aquela sensação que se tem quando falam de canil”, esclarece
Ana Fontinha.
Dezenas de canídeos cheios de força, vitalidade e
energia rodeiam, saltam correm e pedincham a atenção de uma senhora, de 59 anos, que nada mais quer para além de lhes agradar e mostrar paixão.
“Eu acho muito engraçada a frase, «Do conhecimento
nasce o rigor, da paixão nasce o conhecimento». Adotei esta frase como a gêma
desta associação. A paixão pelos nossos ideais. As pessoas têem de ter
paixão pelo que fazem”.
São realmente precisos 9 anos de uma vida, para se ser
capaz de criar laços tão fortes com 180 cães porém, os anos passam, e a
idade não perdoa, “nestes 9 anos sempre pensei que poderia ter a ajuda daquelas
pessoas que passam a vida a apregoar e a gritar os animais isto, os
animais aquilo, ai os animais! Mas não tenho, estou só! Chega a um
ponto em que eu já não consigo aguentar 24h sobre 24h. Já há 9 anos, que não sei
o que é um dia de descanso”.
O rosto de Ana transfigura-se sempre que se refere às
«pessoas de hoje em dia» “a maior parte das pessoas querem cães apenas porque é bonito. Olham para eles como se fossem objetos feitos
para satisfazer as suas próprias necessidades. Fartam-se, abandonam-os. Tem-se
que educar as pessoas de modo a que evoluam naquilo que diz respeito aos
animais. As pessoas tem que se lembrar que os outros não estão aqui para os
servir. Eu não estou aqui para os servir! O cão é o melhor amigo do homem, mas este retribui-lhe
da mesma forma?"
Para Ana Fontinha, o futuro é incerto, tendo como
única certeza a vontade de fazer cada vez mais pelos seus pequenos, grandes, companheiros,“as pessoas ainda me criticam e dizem «melhor fizesses pelas
pessoas aquilo que fazes pelos animais», mas uma coisa é certa, se em vez
de cães aqui dentro estivessem pessoas eu já me teria ido embora”.
Patricia Tavares
Crédito da foto: Pedro Ferreira
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